Karl Marx e o Judaismo

Não deixa de ser paradoxal que Karl Marx tenha sido o grande criador da economia política fundada no esteticismo alemão. Este, o esteticismo alemão, é muito citado e pouco compreendido. Quase tudo que se escreve sobre ele é elegia em torno da figura carismática e gigantesca de Goethe.

Marx é tributário direto do poeta alemão. Bastando ver, para isso, os chamados Manuscritos Econômico-filosóficos, onde faz citações longas do poeta e a sua teoria do dinheiro em O Capital, basicamente extraída do Fausto. Karl Marx vinha de família judaica de ambos os lados, da mãe e do pai.

Ao escrever o opúsculo “Sobre a Questão Judaica” vemos que ele tinha a tinha exata noção dessa filiação ao esteticismo, pois no mundo moldado por essa nefasta ideologia não haveria lugar para o judeu confessional (e nem para o cristão, sobretudo o católico).

No opúsculo, Karl Marx tentou circunscrever a questão judaica à da emancipação e da maioridade política, quando na verdade a questão era bem outra.

No esteticismo alemão residia a lava peçonhenta do racismo, que afinal se revelou o verdadeiro fundamento de sua ideologia, mais além do protestantismo e do materialismo de que estava impregnado.

O comunismo de Karl Marx é a versão da economia política que nega o judaísmo como tal. Miguel de Unamuno também se enganou ao escrever, no belíssimo “La Agonia del Cristianismo”, que Marx era um judeu saduceu renascido, que tinha o propósito de salvar o povo pelo coletivo.

Karl Marx

Nada mais longe de Marx essa visão teológica. O erro de Unamuno equivale ao de Max Weber, ao tentar reduzir a dinâmica histórica da modernidade à questão teológica da ética protestante.

Como tudo em Karl Marx, sua compreensão do judaísmo é torta e preconceituosa, sempre o opondo ao ‘Estado cristão’, quando na verdade o Estado, especialmente o alemão, já era laico e francamente ateu. Por isso escreveu as maiores tolices em torno do assunto.

Quando lemos o Fausto, de Goethe, a coisa fica clara como a água. Se o lemos tendo ao lado o Wilhelm Meister e o Afinidades Eletivas, mais claro ainda fica.

O ponto essencial de Goethe, que era o de Hegel, é que o Mal era o elemento dinâmico da histórica, tendo no mínimo importância equivalente ao Bem.

O próprio Mal era governado por Deus ele mesmo. A ideia da predestinação calvinista preside o poema inteiro, desde o Prólogo no Céu. Fizesse o que fizesse, cometesse o crime que desejasse, o destino de Fausto estava traçado e seria salvo da mesma forma.

A coisa é tão satânica que a vítima sacrificial inocente, Margarida, aparece ela mesma no final para tirar Fausto das garras de Mefistófeles.

O racismo de Goethe, traduzido no germanismo radical, não deixa margem a dúvida. Quando ele escreveu a Noite de Valpurgis Clássica ficou claro: Fausto desposa Helena, a união do nobre germânico medieval com a nobilíssima troiana.

Goethe foi direto ao dizer que não havia lugar na história europeia nem para o judaísmo e nem para o cristianismo e que Roma nunca foi relevante.

Claro que o filho desse intercurso absurdo equivalia ao homúnculo. A criatura nascida da retorta alquímica do humanista rebelado contra Deus: um ser inflado destinado ao despedaçamento, um aborto da natureza.

Mefistófeles, nesse momento, assume a feição horripilante das Fórquias. A união regressiva do masculino e do feminino, ou a fêmea portadora de falo, que parece ser quem insemina Fausto em sua ilusória aparência de Helena, em intercurso veladamente homossexual. Os maiores crimes acontecidos na peça sob a contemplação da feiura mais fantasmagórica.

Essa imagem do germanismo dominador contra Roma e os judeus terá seu apogeu em Hitler.

Mas mesmo um gigante como Thomas Mann deixou um testemunho apaixonado sobre como as classes pensantes alemãs pré II Guerra viam essa questão: a sua obra curiosíssima e bem pouco lida Considerações de um Apolítico é esse documento chave para a compreensão da tragédia da modernidade europeia e sua raiz racista.

Thomas Mann ali colocou claramente que Berlin se opunha a Paris e a Roma. Que o germanismo era diferente e superior à herança judaico-cristã.

[Claro que a grandeza de Thomas Mann consiste em que ele superará esse infantilismo ideológico e suas grandes obras – especialmente o Doutor Fausto e o A Montanha Mágica, posteriores ao Considerações de um Apolítico – mostraram que ele percebeu com aterradora clareza onde ia dar o esteticismo, do qual veio a ser o maior porta-voz no século XX.

Ironia das ironias. Thomas Mann insurgiu-se contra essa loucura coletiva de forma sensacional, ao discursar contra o nazismo em 1929. Naquela ocasião toda a elite pensante alemã – intelectual, empresarial e militar – estava pronta para aderir ao nazismo.]

Sem esquecer que foi Nietzsche quem escreveu as mais furibundas diatribes contra judeus e cristãos, tendo ele decretado a morte de Deus.

Nos tempos de Nietzsche parecia que o Mal tinha suplantado o Bem e que este não mais fazia parte da história. A dialética falsa de Goethe e Hegel assumiu em Nietzsche uma face unilateral.

Os teóricos do esteticismo se esqueceram de investigar a origem do judaísmo, como bem vai fazer Voegelin no século XX. Jeová aparece para negar Baal, Belzebu e outras entidades estatais contemporâneas à Revelação.

Esta dirá aos homens que o Amor supera o ódio. Que o amor a Deus tem como contrapartida o amor pelo próximo. E que Deus é provedor da salvação de cada um.

O judaísmo mostrará o triunfo do indivíduo diferenciado e no Antigo Testamento não há lugar para se imaginar qualquer ideia de economia política coletivista.

A cegueira de Karl Marx o levou a ajudar os algozes espirituais do judaísmo. O esteticismo não podia tolerar a religião de Davi simplesmente porque ela o nega integralmente.

A relação do esteticismo com o judaísmo é a mesma estabelecida entre a verdade e a mentira. Da mesma forma o cristianismo, que levará a ideia do Deus do Amor às últimas consequências.

É claro que estamos aqui diante da mesma velha luta ancestral entre a verdade e a mentira, Deus e o diabo.

Recordar tudo isso é importante porque no momento estão querendo de novo acabar com os judeus da face da terra, ao menos aqueles estabelecidos no Estado de Israel, e as ideias coletivistas estatais estão legitimadas por toda parte, sufocando os indivíduos, a ponto destes não terem mais alternativas que não viver à sombra do Estado todo poderoso, o Baal renascido e fortalecido.

As insensatas gerações atuais são todas adoradoras desse antiquíssimo deus estatal, cujo nome é uma variação para o conhecidíssimo Satã. Ou Mefistófeles, o demônio do Norte. Ou como queiram chamar. Afinal, seu nome é Legiões.

Karl Marx, o tolo, declarou: “A cada um de acordo com a sua necessidade”. Só não disse que o provedor de tudo era Baal renascido sob as veste do Estado moderno. Essa afirmação é uma apologia ao vício da preguiça, ao ócio, ao parasitismo, a marca registrada do nosso tempo.

Nivaldo Cordeiro

José Nivaldo Gomes Cordeiro é economista e mestre em Administração de Empresas pela Fundação Getúlio Vargas
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