Elis Regina, a musical

Fui ver o espetáculo Elis, a Musical, em cartaz no Teatro Alpha. Uma superprodução muito bem cuidada, com texto de Nelson Motta e Patrícia Andrade, contando relances da biografia de Elis Regina. Tudo seguindo a trilha sonora das canções gravadas pela cantora.

No papel principal Leila Garin, brihante, convincente, ótima cantora, acompanhada de ótimo elenco. Eu não a conhecia, virei seu fã. A direção é de Dennis Carvalho.

O espetáculo fez sucesso no Rio de Janeiro e o repete em São Paulo, não apenas por ser portador de elevado nível artístico, mas também porque a plateia se reconhece no palco.

Em alguns momentos, aqueles que são da minha geração não podem deixar de se emocionar quando a atriz canta O Bêbado e o Equilibrista, do João Bosco e Aldir Blanco. Ou a sempre belíssima e revolucionária Como Nossos Pais, do Belchior.

Eu me emocionei pelas lembranças que tenho e pela carga emocional que essas canções provocam em mim. Hoje sei, todavia, que são peças de propaganda política envelopadas em músicas cativantes.

O espetáculo é a maior prova de que a esquerda está feliz de si mesma. Elis Regina foi a grande cantora contra o poder do seu tempo de vida, a maior,  e deu voz aos compositores engajados. É o canto da trajetória que levou os partidos políticos de esquerda ao poder, em todos os níveis.

Elis Regina e o regime militar

Elis Regina
Os sonhos mais lindos, sonhei

A direita, desde os anos sessenta, foi dizimada no Brasil. O canto de Elis Regina não apenas embalou a jornada dos derrotados pelo regime militar, como serviu exuberantemente para a propaganda da causa. Elis nunca fez entretenimento, sempre quis a revolução. Sempre militou pela revolução.

A peça em si é também instrumento de propaganda, agora ufanista. É o canto dos vitoriosos que se sentem confortáveis no poder.

É a glória daqueles que integram as siglas atualmente governantes, que congregam todos os que fizeram o movimento revolucionário. O toque de humor está na presença do personagem Paulo Francis, provavelmente inspiração do Nelson Motta, com quem dividiu a bancada do Manhattan Connection.

Duvido que o grande Paulo Francis permitisse, em vida, o uso de sua imagem para adornar um convescote esquerdista, como é o musical.

Mas a esquerda nunca respeitou direitos autorais e nunca deixou de usar e abusar das coisas e pessoas que podem lhe ser úteis. É o toque de sofisticação da peça.

Eu não ia ver o espetáculo, pois já adivinhava o seu conteúdo, mas uns amigos me convidaram e me deram de presente as entradas. Como recusar?

Fomos e me emocionei, mas não pude deixar de sentir uma repulsa fulminante pela propaganda revolucionária embutida.

Sobre o Autor:

José Nivaldo Gomes Cordeiro é economista e mestre em Administração de Empresas pela Fundação Getúlio Vargas (FGV/SP). José Nivaldo ocupou vários cargos na administração federal e é hoje Diretor de Operações do Grupo Nobel de Livrarias
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