A hora do herói Augusto Matraga

Para um grande escritor é preciso haver um grande crítico. Quando saiu publicado o Sagarana, Antonio Cândido, em julho de 1946, publicou no então Diário de São Paulo no conto “A hora e a vez de Augusto Matraga”. O autor entra em região quase épica de humanidade e cria um dos grandes tipos da nossa literatura, dentro do conto que será, daqui por  diante, contado entre os dez ou doze  mais perfeitos da língua”. Não foi pouca coisa para um autor estreante.

No último parágrafo o grande crítico não se conteve e escreveu que “Guimarães Rosa  vai reto para a linha dos nossos grandes escritores”.

O que tanto encanta no Augusto Matraga? Ele mantém a estrutura das peças trágicas do século V da Magna Grécia. Mantém a ideia de destino (melhor chamado aqui de Divina Providência, pois o autor é católico).

Trata do conflito entre dois tipos de leis não escritas que precisam ser cumpridas e exalta o valor da redenção, pela prática do bem, e do heroísmo. Guimarães Rosa reescreveu em termos cristãos a tragédia clássica.

Augusto Matraga é um homem arrogante e poderoso, que sofre uma sucessão de desgraças: perde seus capangas de confiança, perde a esposa e a filha “se perde”, empobrece e.

Por fim, toma uma surra memorável, que finda quando é ferrado em brasa, como uma rês. Na hora derradeira a Providência age e ele escapa vivo, pobre, machucado e maltrapilho.

Dois anjos, na forma de um casal de velhos negros, o resgatam e, desde então, Augusto Matraga tenta expiar seus pecados todos os dias, mediante trabalho duro e altruísta e muitas orações.

Vai para um espécie de exílio em terras distantes, escondendo-se de tudo e de todos. Ele se converteu ao bem e se tornou um bom católico.

Augusto Matraga
Cena de A hora e a vez de Augusto Matraga

Certo dia aparecem por lá Joãozinho Bem Bem e seu bando, cangaceiros provados, uma versão pagã de força física e militar. O contato entre Joãozinho Bem Bem e Augusto Matraga revela uma afinidade imediata. O primeiro diz: “Nossos anjos da guarda se combinam”.

Ficam amigos, Augusto Matraga torna-se seu anfitrião e, antes de partir, o cangaceiro chefe convida-o para fazer parte do bando. Augusto Matraga recusa e profere as palavras do título, que todo homem tem a sua hora e sua vez, mas a sua ainda não chegara.

O tempo passa e Augusto Matraga se sente novamente recuperado e forte e a passagem das aves migratórias é tida por ele como um sinal, o de que precisava procurar o seu destino. Monta num jumento e vai pelo mundo, guiado pelo próprio animal (equivalente a uma força inconsciente).

Numa aldeia encontra Joãozinho Bem Bem, que estava ali para vingar um dos cangaceiros, assassinado pelas costas. Como o assassino fugiu, a lei não escrita era que um homem da família do assassino deveria ser sacrificado, para pagar. O desfecho trágico e surpreendente acontece.

O bando invade a igreja, onde o pai do assassino tenta proteger os dois filho menores, um dos quais seria o sacrificado, e a figura máscula do padre se sobressai na defesa da família. Em vão. O bando é forte e grande e o chefe é impiedoso e determinado.

A chegada de Augusto Matraga dá uma pausa e Joãozinho Bem Bem reitera o convite para que ingresse no bando, oferecendo-lhe  o cavalo e as armas do cangaceiro morto.

“Sou um pobre pecador, seu Joãozinho Bem Bem”, respondeu Augusto Matraga. “Que-o-quê! Essa mania de rezar é que está lhe perdendo… O senhor não é padre e nem frade, p’ra isso; é algum?… Cantoria de igreja, dando em cabeça fraca, desgoverna qualquer valente… Bobajada!…” A ética antagônica dos dois homem é explicitada.

Augusto Matraga toma a espingarda e então se dá conta do drama que se desenrola na igreja. Havia chegado a sua hora. Imediatamente ele diz ao chefe para parar, que aquilo não podia ser feito e o desafia. Luta sozinho contra o bando, mata vários, inclusive o chefe e é morto.

O herói se fez pelo bem. Salvou as vítimas inocentes de uma ética torta, justiceira, maligna. Foi sacrifício de um herói cristão no combate justo.

Nivaldo Cordeiro

José Nivaldo Gomes Cordeiro é economista e mestre em Administração de Empresas pela Fundação Getúlio Vargas
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