23 de janeiro de 2012

As benevolentes

As benevolentes O genocídio moderno é um processo infligido à massas, pelas massas e para as massas. Jonathan Littell

O livro "As Benevolentes", de Jonathan Littell, chegou ao Brasil em 2006 pelo selo Alfaguara, da Editora Objetiva. Recebeu inúmeras resenhas nos meios de comunicação, todas laudatórias. Não há nada a reparar nesse grande romance de quase 900 páginas. Os superlativos abundam nas resenhas, com justa razão. A melhor que li foi a do escritor Jessé de Almeida Primo, publicada na revista Dicta&Contradicta, que lhe convido a consultar, caro leitor.

O que me absorveu no romance é que o autor foi movido pela paixão que me move com o tema do nazismo e da Segunda Guerra Mundial. Tenho mergulhado nas raízes o niilismo do século XX, que teve no nazismo um apogeu. Não é possível compreender a catástrofe moral sem buscar suas raízes primeiras e até onde a minha vista pode alcançar elas estão na Reforma e no Renascimento, momentos do advento do "homem revolucionário" no mundo. Este homem deu as costas para Deus e protagonizou a rebelião fáustica: na literatura sobre esse fascinante personagem é que podemos colher a pista sobre a origem e sobre o seu fugaz triunfo nos regimes totalitários.

O homem fáustico teve em Goethe o seu poeta maior. Este alemão antecipou a sua psicologia, sua fome de glória e de terror. Em Goethe está delineada a epopéia nazista. Hitler está contido no Euforion, esse ser inflado incapaz de amar e pronto para maltratar e estuprar quem estivesse pela frente. Goethe descreveu sua gênese pelo casamento do Fausto com Helena, essa forma plástica e poética de excluir qualquer influência de Roma e do cristianismo da Europa onde, por um milênio e meio, a fé cristã triunfou. É uma refinada forma de dizer que o Deus de Moisés e Cristo estava morto. É de Goethe que teremos o cântico mais soturno a Mefistófeles, ele que exaltará a negação como motor da história, idéia depois apropriada por Karl Marx para edificar a mais sangrenta ideologia de todos os tempos.

Jonathan Littell tem portanto razões de sobra para ter recriado sua terrificante história com forma de tragédia grega. Não há dúvida que muito honrou Thomas Mann, esse maior discípulo de Goethe e o mais anti-goethiano dos romancistas, ao menos no seu Doutor Fausto. Este livro é uma das evidentes inspirações de Littell, pois nele está o diagnóstico do drama da modernidade: o doutor que vende a alma ao diabo em troca dos prazeres mundanos e do poder. O personagem de Littell é doutor em Direito, recrutado para ser um oficial da SS, ou seja, um carrasco matador dos supostos inimigos do regimes. Por primeiro os judeus, não sem antes ter começado pelos loucos, velhos e inválidos alemães. O objetivo último era matar todos que eram da seita judaica, ou seja, o cristianismo. Na verdade, o racismo serviu de veículo para a sanha assassina contra toda a humanidade. O ódio demoníaco contra a humanidade estampado com todas as letras.

O personagem principal, o doutor Maximiliano Aue, é uma síntese da deformação moral dos tempos. Incestuoso, homossexual, amoral, falta-lhe o menor resquício de sentimento de culpa, embora tenha consigo esmerada formação humanista. Até a última ação do livro ele mata, por oportunismo e por necessidade. E por instinto. Até seu único amigo é sacrificado covardemente, por motivo torpe.

Terminado o livro eu fui rever o filme A Queda - As Últimas Horas de Hitler, aclamado filme do diretor alemão Oliver Hirschbiegel, a recriação mais realista e espantosa de como tudo se passou ao final. O que mais me espanta é que a elite intelectual e militar se curvou ao demagogo, sacrificando seu discernimento e sua vontade, cumprindo sem constrangimento as ordens insensatas da hedionda figura de Hitler. Max Aue faz uma longa explanação de como a vontade do Chefe torna-se a única fonte do Direito. Aqui o lapso mental a justificar a quebra da moralidade.

A irmã incestuosa de Max Aue é psicóloga, formada diretamente por Karl Jung. Outro símbolo aqui presente. Jung é aquele que tentou ver a psicologia individual como passível de redenção pela Sombra, pelo mal. O psicólogo suíço é também filho dileto de Goethe. É outra maneira de afirmar o mal como o motor da história. A minha conclusão é contrária a Goethe e a todos os seus filhos: do mal só pode vir o mal, dele não há redenção. Esta só pode vir de Deus. A "obra" macabra do nazismo é a prova mais contundente dessa realidade. A mente revolucionária afirma essa sandice porque deu as costas para Deus. Se este morreu, ou não existe, assume o seu lugar o triunfante Mefistófeles, o "demônio do Norte". Jung, como Goethe, como Nietzsche: são todos adoradores do Negador. E estavam errados, pela graça de Deus.

O livro foi escrito originalmente em francês e Littell provoca grande efeito nos leitores ao manter em alemão os títulos das patentes militares. Dá um tom "alemão" ao livro em qualquer língua. Foi um recurso fantástico descoberto pelo autor.

Algumas passagem do livro são nauseantes, sobretudo aquelas em que cruamente são descritas as pulsões homossexuais do personagem, assim como os assassinatos surpreendentes, como o da sua mãe e padastro. A narrativa dos massacres de judeus até chegar aos campos de concentração é também terrível e é preciso estômago forte para agüentá-la. Lembrando que não é mera ficção, mas um relato fiel dos acontecimentos.

Em suma, Jonathan Littell consegue na obra descrever a loucura de um indivíduo isolado delirando em consonância com a delírio coletivo de todo um povo. Um feito além do literário, uma síntese da psicologia e da antropologia, usando dos símbolos para executar uma narrativa artística. Embora auto-evidentes, apenas o leitor atento poderá perceber a grande sofisticação do seu uso na narrativa. Por isso o livro é uma obra-prima, talvez a primeira publicada como romance no século XXI.

Não é possível acabar a leitura indiferente. O livro renovou meu interesse pelo tema. Agora é preciso revisitar Goethe e Thomas Mann à luz de Littell. Compreender "As Benevolentes" é literalmente compreender a modernidade e seu mergulhos nas trevas demoníacas. As massas, desamparadas de Deus, encarnam o Beemoth bíblico. São lobos sedentos de sangue humano. Nivaldo Cordeiro

17 de janeiro de 2012

Se beber, não durma

se beber não durma A Secretaria de Políticas para as Mulheres preocupada com o grande número de estupros de mulheres após bebedeiras vai lançar a campanha "Se beber, não durma". A titular da pasta ministra Iriny Lopes, avalia que a campanha com vistas a diminuir o número de acidentes de trânsitos "Se beber, não digira" é sucesso total e quer pegar carona copiando a idéia.

Em entrevista, questonada sobre o que achava do rumoroso caso de suposto estupro acontecido no BBB 12, Iriny afirmou que se Monique não tivesse dormido, nada teria acontecido. Quando o reporter perguntou, caso a participante fosse Gisele Bunchen qual seria o desfecho do caso, rispida, ela deu a entrevista por encerrada e respondeu bruscamente “Gisele é uma oportunista, todo mundo viu sua campanha em prol da Hope, neste caso estaria estampada no Edredon a marca Zelo”.

Vem aí novo reality show, o CCC, Curtir, cutucar e comer

estupro no bbb Acostumado a 'cutucar, curtir' e 'compartilhar' no Facebook, o Big Brother Daniel participante do BBB 12 não teve dúvidas, comeu Monique, a devassa embriagada. Após o rumoroso caso a direção da Globo avalia renomear o reality show, vai se chamar CCC, Curtir, Cutucar e Comer.

O novo reality show da Globo CCC "Curtir, cutucar e comer" terá o patrocínio da AmBev e Schincariol, todo participante pode encher a cara e depois ser curtido, cutucado e comido. A opção “Compartilhar não se encontra disponível, mas será avaliada com extrema atenção pela direção do programa. A vênus Platinada só se preocupa com uma coisa, alguém reclamar direitos sobre o fiofó alheio, visto que Cu de bêbado não tem dono. Vai ter muita briga na justiça…

16 de janeiro de 2012

Hoje é dia de Maria

as marias Depois de virar celebridade por conta da gravidez de quadrigêmeas a empresária Maria Verônica Aparecida Vieira, 25 anos, declarou que já escolheu o nome de suas futuras filhas, todas vão se chamar 'Maria'.

O SBT que é chegado ao nome “Maria” e já exibiu as novelas Maria Mercedes, Marimar, Maria do Bairro, Maria Belém, Maria Isabel, Marielena ou Simplesmente Maria pensa em contratar as meninas para a próxima novela da tarde, a novela terá o sugestivo título de O Berço das Marias. De olho na liderança da audiência a Globo quer refilmar o Seriado Hoje é dia de Maria ou então a versão do clássico A Casa das Sete Mulheres que se chamaria A Casa das Cinco Marias, aproveitando a onda a Globo programou a reprise de As Três Marias  no Vale a Pena Ver de Novo. 

O come-quieto Milton Nascimento vibra entusiasmado com todo este alarido, pois julga que sua música Maria, Maria vai entrar novamente nas paradas de sucesso.

3 de janeiro de 2012

Questões de direito

Jonathan Littell Ando lendo o romance AS BENEVOLENTES, do Jonathan Littell (Rio de Janeiro, Objetiva, 2007) e já superei uma boa metade do volumoso livro. A narrativa é chocante, ali vemos que todas as leis e todos os marcos civilizatórios foram derrogados. Um delírio coletivo sanguinário tomou conta de toda a gente na Alemanha de Hitler. Penso que algo equivalente deu-se com a revolução bolchevique, tão sanguinária e tão genocida quanto. Diálogos inseridos pelo próprio Littell demonstram o parentesco ente o nazismo e o comunismo.

Littell, como Thomas Mann, fez do seu personagem um doutor. No caso, em Direito. Muito apropriado que um doutor em Direito, leitor de Kant, tenha aceitado alegremente ser um carrasco da SS. O próprio Doutor Fausto encarnado. O que choca no nazismo não é que o populacho, sempre infame e de instintos baixos e primitivos, tenha tido as rédeas do poder. Não! Foram os sofisticados intelectuais que aderiram sem peias ao irracionalismo homicida que redundou na hecatombe da II Guerra Mundial.

[Importa observar que no Brasil algo semelhante tem acontecido com a nossa classe letrada em relação ao PT. Alegremente deram sua adesão e seu consentimento. Por sorte este partido não teve forças para o terceiro mandato de Lula e não conseguiu governar o Estado de São Paulo, o que impediu até agora a tentação autoritária de governar por decreto. Mas o anseio para estar acima do bem e do mal não é escondido pelos petistas e é questão de tempo e oportunidade que se sintam à vontade para negar os valores elementares da civilização. Como na Alemanha, a adesão dos letrados se deu em simultâneo com a adesão dos empresários. Por isso que não há oposição no Brasil, como não houve oposição a Hitler.]

Nos últimos anos tenho tentado me dar uma resposta para essa questão da perda dos valores civilizacionais, o mergulho no irracionalismo genocida. A resposta que encontrei está no âmbito da filosofia política, com o respectivo desdobramento no campo do Direito. O corte essencial se deu no Renascimento, com a emergência do Estado nacional, e a Reforma, que deificou o direito positivo. A reviravolta na ciência política, desde Maquiavel, levou à superação do direito natural. Desde então a fonte do Direito deixou de ser transcendente para se escorar unicamente no poder do príncipe. Esse foi o declínio civilizacional que abriu caminho para todos os crimes amparados nas razões de Estado, que temos visto desde as guerras religiosas.

O abandono do direito natural consolidou-se nos juristas do século XVII, especialmente com Hobbes e Grocius. Então a expressão direito natural passou a designar algo diverso do que até então se entendia por ela. A fonte do Direito foi transferida para a razão, o que equivale a dizer: para o príncipe. O golpe final veio com a democracia de voto universal, que deu às massas o poder de demandar seus preconceitos e instintos baixos para o governante, que se viu na contingência de procurar atende-las. Governar deixou de ser a busca do bem comum para ser o cultivo das multidões insaciáveis.

O fim da II Guerra Mundial levou a que juristas e filósofos meditassem sobre o totalitarismo. Era preciso responder: como foi possível? No plano conservador a resposta foi dada adequadamente por Eric Voegelin e Leo Strauss: o ponto estava no positivismo jurídico e o caminho de volta à civilização levava ao retorno ao direito natural. Foram derrotados pela corrente alternativa, a que vinha do jus-naturalismo de Hobbes e Locke: pela tese dos direitos humanos. A ironia é que as boas intenções liberais que tentaram conter a lama negra do totalitarismo com essa perfumaria já estavam derrotadas pela empolgação da tese pelos radicais de esquerda, que fizeram dos direitos humanos panfletos telegráficos para subverter a ordem liberal e restaurar o cinismo do positivismo jurídico com toda pompa. Viu-se, na segunda metade do século XX, o triunfo das teses do partido revolucionário, primeiro nas organizações multilaterais, como a ONU, depois pela paulatina substituição da legislação de cada país por sua forma jurídica uniformizadora em escala planetária.

Nomes como Norberto Bobbio e John Rawls prevaleceram, a partir do ponto de vista de Antonio Gramsci, sobre as posições conservadoras. Se é certo que Eric Voegelin e Leo Strauss inspiraram Ronald Reagan e os Bush, sua influência não passou de inspiração para o governante, jamais para a estrutura do Estado. O direito natural não poderia ser restabelecido se todas as escolas de Direito ensinavam a visão alternativa. O pensamento único em direito virou uma realidade. Foi a vitória completa do igualitarismo revolucionário.

[Uma das coisas notáveis da política em São Paulo é a enorme taxa de rejeição de José Serra. Mesmo os acadêmicos vinculados à sua escola de origem, a Unicamp, rejeitam-no vigorosamente porque José Serra ousou defender as privatizações. Pecado imperdoável para aqueles que desejam uma economia plenamente estatizada, mesmo contrariando a experiência que mostrou ser irracional e contraproducente a estatização total. Essa gente quer isso. É a sua meta e é questão de tempo que a alcancem. A rejeição a José Serra é a mesma de que padece Fernando Henrique Cardoso, pelas eventuais coisas boas que fizeram enquanto governantes.]

Os tempos de crise que se abrem agora colocam os mesmos problemas e os mesmos riscos e dilemas que foram colocados para aqueles que viviam na década de Trinta do século passado. Aderir ou não aderir não é pergunta que se faça, já que todos aderiram ao poder estabelecido. A impressão que tenho é que os milhões de mortos no altar da estupidez não deixaram lições preventivas, exatamente porque essa nefasta experiência não trouxe impactos no mundo jurídico. De novo o positivismo nas letras jurídicas triunfa. Por isso que a agenda revolucionária em matéria de costumes não encontra objeção de consciência. O ambientalismo, o gaysismo, o abortismo, a destruição acelerada da família monogâmica encontram-se em estado avançado. A supertributação é vista como normalidade. Se é a vontade do governantes, só cabe obedecer e não questionar. Sabemos muito bem onde esse caminho levará. Basta ler o livro de Jonathan Littell. O matadouro pode estar na curva do tempo. Nivaldo Cordeiro

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